No Brasileirão de 2026, o impedimento semiautomático usa inteligência artificial e câmeras para identificar o instante relevante do toque na bola, localizar jogadores e produzir automaticamente as linhas e a reconstrução tridimensional do lance. A equipe do árbitro assistente de vídeo (VAR) confere o resultado gerado, verifica o contexto da jogada e o comunica ao árbitro de campo, responsável pela decisão final. Segundo a CBF, o VAR não recalcula posições nem desenha as linhas manualmente.
O sistema, conhecido pela sigla SAOT (de semi-automated offside technology), estreou oficialmente na Série A em 25 de julho de 2026, na 20ª rodada. A diferença crucial é que estar adiantado não constitui, por si só, uma infração: o envolvimento do atleta no lance continua sujeito às Regras do Jogo.
O que a IA calcula no sistema brasileiro
A CBF anunciou em 21 de julho o uso da tecnologia GeniusIQ, da Genius Sports. Conforme o balanço publicado pela entidade em 27 de julho, cada estádio recebeu de 28 a 32 câmeras dedicadas, que captam imagens em 4K a 100 quadros por segundo, além de cinco servidores locais. As imagens chegam à Central do VAR no Rio de Janeiro, equipada com dez salas integradas.
O processamento identifica os atletas relevantes da defesa e do ataque, acompanha pontos de seus corpos, seleciona o instante do contato com a bola, compara as posições e gera a representação em três dimensões (3D). É uma medição geométrica automatizada, e não uma decisão autônoma sobre todas as circunstâncias da regra. A frequência de 100 quadros por segundo equivale a um intervalo de aproximadamente 0,01 segundo entre imagens captadas; isso não é, sozinho, uma garantia de erro máximo de 0,01 segundo ou de precisão em centímetros.
O que o VAR valida e o que permanece com o árbitro
Segundo o esclarecimento da CBF de 27 de julho, a arbitragem de vídeo verifica e confirma o material produzido automaticamente. Ela não desloca jogadores virtuais, não recalcula distâncias e não redesenha linhas para escolher outro resultado. Em situações raras, como atletas sobrepostos, obstruções visuais ou dúvida quanto ao instante do contato, pode avançar ou retroceder um quadro para conferir a referência temporal. A CBF afirma que essa necessidade não ocorreu nas cinco checagens da estreia.
A Regra 11 do International Football Association Board (IFAB) distingue posição de impedimento de infração de impedimento. Para haver punição, o jogador em posição irregular precisa participar ativamente, por exemplo tocando a bola, interferindo em um adversário ou obtendo vantagem nas situações previstas pela regra. Braços e mãos não contam para definir a posição. O protocolo do VAR distingue a conferência factual de posição da interpretação sobre interferência: a primeira normalmente pode ser resolvida pela comunicação do VAR; a segunda pode exigir revisão do árbitro no monitor. A palavra final continua sendo do árbitro de campo.
As cinco checagens da estreia, uma a uma
O primeiro fim de semana, em 25 e 26 de julho, teve cinco checagens em quatro partidas. O relatório oficial identifica as ocorrências e os tempos contados a partir da marcação inicial do gol:
| Jogo | Resultado da checagem | Tempo divulgado |
|---|---|---|
| Santos x Chapecoense | Gol de Marcinho, da Chapecoense, confirmado | 48 segundos |
| Flamengo x São Paulo | Gol do São Paulo confirmado | 33 segundos |
| Flamengo x São Paulo | Gol do Flamengo anulado | 64 segundos |
| Bahia x Corinthians | Gol do Bahia anulado | 32 segundos |
| Remo x Vitória | Segundo gol do Remo confirmado | 62 segundos |
A CBF divulgou uma média de 47 segundos. Há uma ressalva aritmética: os cinco tempos inteiros publicados somam 239 segundos e produzem média simples de 47,8 segundos, não exatamente 47. O comunicado não explica essa diferença. Os números referem-se exclusivamente a essas cinco verificações, não ao tempo médio de toda a temporada, ao processamento isolado da IA ou a uma comparação controlada com o VAR anterior.
O instante do passe ainda pode gerar controvérsia?
Sim. Na estreia, a reportagem do ge registrou críticas porque a animação mostrada ao público destacava a linha tridimensional sem apresentar, no mesmo gráfico, o instante do passe. Diferentemente da configuração com bola sensorizada usada em torneios da FIFA, o sistema descrito para o Brasileirão detecta o contato por imagens das câmeras. A CBF respondeu que a identificação do ponto de contato, chamado kick point, é automática e que a equipe de vídeo valida o resultado.
Há ainda uma distinção de terminologia que merece cuidado. O comunicado da CBF menciona o “último contato” do jogador com a bola; a redação vigente da Regra 11 do IFAB determina, em geral, o primeiro ponto de contato do toque ou jogada, com uma exceção para o lançamento de bola pelo goleiro com as mãos. Os documentos consultados não detalham como essa diferença de expressão é tratada operacionalmente em cada lance. Ela não permite, por si só, concluir que uma decisão da estreia esteja errada.
A animação em 3D é uma visualização da análise validada, não uma filmagem independente nem prova pública de todos os passos internos. A documentação examinada permite explicar o fluxo anunciado e relatar as cinco checagens, mas não constitui auditoria técnica independente da precisão do SAOT nem teste do sistema realizado pela DTech.





